Parte 3

O bunker não abria de segunda-feira, mas o trabalho era bem mais exaustivo naquele dia da semana do que qualquer outro. Eram às segundas-feiras que Lisa verificava os estoques, fazia as contas, organizava mais uma semana, os lucros e as despesas. Depois que Gen chegou para ajudá-la a vida de Lisa foi ficando mais fácil naquelas tarefas.

O Holzbunker era um bar de gerações, inicialmente um bom esconderijo de bombardeios da Segunda Guerra, o bisavô de Lisa o construiu ainda na I Guerra e o avô da mulher aperfeiçoou nos anos 1940 para maior proteção de sua família. Depois de 1945, ainda solteiro e tentando superar os traumas que um período de conflitos intensos poderia trazer, o avô de Lisa resolveu trazer uma nova visão do bunker e ajudar outras pessoas a superarem os medos e traumas com um bar, mas o lugar ainda parecia amedrontador, foi na década de 60 que ele revestiu todo o lugar com madeira e aquilo acabou virando uma atração para os residentes que já conheciam e para os turistas que aos poucos voltavam para a cidade.

Em meados dos anos 60 o avô de Lisa se casou e teve seu único filho, o bar continuou na família, shows ao vivo de grupos que passavam pela cidade trouxeram cada vez mais alegria para o bunker, as fotos de cantores alemães famosos na região viviam penduradas atrás do bar, como relíquias a serem apreciadas. Nos anos 1980 o pai de Lisa já aprendia os principais truques para comandar aquele artefato histórico da família, casando no final daquela década ele passou o conhecimento para a mãe de Lisa e, com quase 30 anos, ela assumia as responsabilidades da família.

Depois de verem que Lisa dava conta do negócio, principalmente depois de se formar na faculdade de Administração, fazendo um ano a mais para pegar o diploma de Contabilidade, os pais de Lisa conversaram com ela sobre deixar o bar em suas mãos enquanto o casal viajava pelo mundo como uma lua de mel que nunca tiveram. Lisa nunca achou ruim, sempre foi caseira no sentido de não sair muito da cidade e o bar sempre foi algo que ela amou desde o primeiro dia que seu pai a levou para lá. Cuidar daquele pedaço da história de sua família era mais que um simples dever, para Lisa era uma honra, por isso não foi nada pesaroso para ela aceitar a proposta dos pais que saíram viajando mundo afora.

Um mês depois da partida deles, Maria Eugênia chegava na cidade com duas malas grandes de rodinhas e uma mochila nas costas. Estava agasalhada porque o frio ainda se fazia presente e completamente maravilhada com cada espaço daquela região. Hospedada em um hostel, a mulher conheceu uma parte da cidade de manhã e de noite estava à procura da vida noturna de Colônia, foi por acaso, como acontecia com muita gente, que ela viu o letreiro em neon no final de uma rua sem saída e a curiosidade a levou até o Holzbunker.

O bar estava movimentado e depois da primeira boa impressão que Gen teve do lugar ser completamente diferente do que imaginava, ela foi abordada por Lisa que sempre atendia os clientes com um sorriso no rosto e frases prontas em alemão.

“— Desculpa, eu não falo alemão… – Gen disse esperando que a mulher a sua frente também soubesse falar em inglês.

— Sem problemas! – Lisa respondeu em inglês animada – Bem-vinda ao Holzbunker!

— Tem alguma tradução? – Gen era maravilhada pela língua alemã, mas nunca teve muita paciência de aprender, mesmo assim, sentia que aquele lugar e aquele nome tinham que ter uma tradução.

Bunker de madeira… – Lisa disse rindo.

— É uma ideia genial! Você tem cara de ser mais que a garçonete, estou errada?

— Sou a dona… – Lisa disse sem jeito.

— Nossa e de onde veio essa ideia genial?! E que mal me pergunte, mas quantos anos você tem? – Gen olhava ao redor, as músicas saíam de caixas de som ao redor do bar, a música era gravada.

— Veio do meu bisavô depois da guerra… Passou pro meu avô, pro meu pai e agora eu que tô no comando! – Lisa sorriu já sentindo muita conexão com Gen de início – Tenho 29, mas agora sabe que a ideia não foi minha…

— Esse lugar é incrível! – Gen caminhava pelos corredores um pouco apertados do bar por conta das muitas mesas espalhadas – Vocês têm um palco! Têm apresentações ao vivo?! – Gen gostava de bares com músicos que se apresentavam ao vivo.

— Houve uma época que tinha, segundo o meu pai, os anos 60 receberam até músicos ingleses, nos anos 80 ainda tinha shows, mas depois do Spotify é difícil ter uma competição, né? – Lisa seguia Gen – Posso te trazer uma bebida? Nossa cerveja é artesanal e receita de família, a primeira caneca para novos clientes é por conta da casa!

— Eu vou aceitar sim! – Gen se sentou em uma mesa do lado do palco vazio.

A madrugada passou como Lisa já estava acostumada, era uma típica terça-feira e o movimento não era grande, mas dava para ajudar nas contas do lugar, Gen resolveu ficar até o final do expediente, estava encantada com todo aquele mundo subterrâneo.

— Você ainda está aqui! – Lisa disse rindo indo até Gen – Acho que não me apresentei, sou Lisa! – ela estendeu a mão para cumprimentar Gen.

— Maria Eugênia! – Gen retribuiu ao aperto de mão – Pode me chamar de Gen, eu percebi ontem que um apelido assim facilita a vida de todo mundo! – ela riu.

— Você é nova na cidade, né? Tá de passagem ou quer morar por aqui? – Lisa se sentou com Gen na mesa.

— De passagem, mas pretendo ficar mais que uns dias por aqui, falando nisso, o hostel que eu tô é meio carinho, conhece algum mais barato? Sei que tem os aplicativos, mas perguntar para um residente é mais confiável!

— Bom, eu não faço a menor ideia… – Lisa sorria pensativa.

— Posso te falar uma coisa? Eu acho que esse bar tem muito potencial, muito mesmo e se você voltar a trazer os shows ao vivo só tende a melhorar, vai por mim!

— Mas quem cantaria aqui? Não acha muito ultrapassado essa coisa de show ao vivo? Porque ninguém assiste ao show de fato, a música toca só pra ter uma melodia no ambiente, por isso o Spotify sai mais em conta, porque o show ao vivo tem o couvert a ser pago pros artistas…

— Lisa, eu não te conheço. – Gen disse sorrindo – Mas me dê uma semana, ou menos, sou boa nisso, vou me gabar… Me dê alguns dias, se eu achar alguma banda pra tocar aqui, uma noite sem couvert, só pra gente ver como vai ser, você topa trazer de volta os shows ao vivo?

— Por que você faria isso, Gen? Você mesma acabou de falar que nem me conhece… – Lisa sorria  e por dentro se sentia animada.

— Porque eu gostei de você e desse lugar! – Gen fez parecer ser óbvio – Eu prometo que vou vir aqui com uma banda e vai ser um arraso! O que me diz? Te passo meu número agora pra você ficar me cobrando o dia todo!

— Você disse que tá num hostel, né? – Lisa encarava Gen sorrindo se perguntando de onde aquela mulher tinha saído.

— Tô, em alguns países alguns hostels não cobram hospedagem, mas pedem retribuição em serviços, eu não achei nenhum desses por aqui, por isso queria um mais baratinho, se souber de algum, esse é meu número! – Gen abriu a bolsa e puxou de lá o celular e uma caneta – Não decorei ainda, peguei o chip daqui hoje… – ela disse olhando para a tela e anotando o número novo no guardanapo em cima da mesa.

— Comprou um chip daqui? – Lisa olhava o número.

— Sim, sai mais em conta, mas aqui está o meu número oficial se quiser… – Gen anotou outro telefone no guardanapo.

— De onde é? – Lisa perguntou.

— Brasil, mas é mais fácil agora eu te responder por esse! – Gen apontou para o novo número – Enfim, me manda mensagem, eu vou arranjar a banda e se você souber de algum hostel mais barato, me avise, por favor! – Gen se levantou – Bom, onde posso pagar a conta?

— Gen, eu não te conheço… – Lisa se levantou junto com Gen e indicava o caminho até o caixa em frente à escada de entrada – Mas… Meu Deus isso é loucura…

— O que é loucura? – Gen perguntou preocupada.

— Bom, eu moro sozinha, se quiser pode ficar na minha casa e aí se topar, te arranjo um lugar aqui no bar pra trabalhar em troca… Te pagando o salário, claro!

— Você tá chamando uma desconhecida pra ficar na sua casa? – Gen riu – E oferecendo um emprego pra essa desconhecida?

— Bom, se você me matar a minha consciência vai estar bem limpa, já a sua não posso dizer o mesmo… – Lisa riu junto e pegou o cartão que Gen entregou pra pagar a conta da noite.

— Lisa, eu topo! E prometo não te matar, prometo ainda dar o melhor de mim pra te ajudar pelo tempo que eu ficar na cidade e não precisa me pagar, só me dando comida e cama está ótimo! – Gen respondeu animada.

— Faço questão, você vai ser uma funcionária e como tal, merece salário… – Lisa devolveu o cartão para Gen – Eu acordo tarde, então vou te mandar mensagem com meu endereço, apareça por lá depois das 13h, por favor… – ela riu – Não é longe daqui, na verdade é no quarteirão aqui de trás… Antigamente a gente morava ali em cima, mas virou um prédio comercial, aí meu pai pegou uma casinha na rua de trás…

— Estarei aqui depois das 13h! Lisa, você é um anjo, obrigada! – Gen deu um beijo na bochecha de Lisa e subiu as escadas para fora do bar, mas voltou em seguida – Quer que eu te ajude aqui agora? Porque eu tô pronta pra ajudar!

— Não! – Lisa riu – Fica tranquila, amanhã você começa direitinho…

— Fechado! Na parte da manhã já vou mexer meus pauzinhos pra achar a banda! Até mais tarde, Lisa!”

Lisa se fechava no bar na parte da tarde de segunda-feira para fazer todas as contas e listas possíveis. Gen a ajudava com planilhas no computador e a tarde se seguia parada e bem diferente de como o bar funcionava de noite. Naquela segunda-feira Lisa foi mais cedo para o bar, era a hora do almoço e a única coisa que encontrou informando a localização de Gen era que ela tinha ido almoçar com Dennis, sorrindo com aquele novo acontecimento na vida da amiga, Lisa fazia as contas na esperança de nunca precisar se despedir de Gen.

— Estou começando a achar que você vai me matar e esconder meu corpo em qualquer lugar… – Dennis caminhava por ruas desconhecidas de Colônia, quase sem movimentação.

— Hoje não… – Gen só estava sendo discreta, logo entrou num restaurante pequeno, porém aconchegante, lembrava mais uma doceria do que um restaurante, mas era só mais uma peculiaridade que Maria Eugênia achava no meio da civilização – Aqui tem uma ótima comida e preços acessíveis!

— Que charmoso… – Dennis olhava para o lugar todo coberto por papel de parede rosê, cadeiras de ferro verdes e mesas de madeira.

— Comi aqui no meu primeiro dia em Colônia… – Gen se sentava em uma mesa e olhava o cardápio.

— Quando chegou aqui? – Dennis olhava o outro cardápio.

— Meio de abril… – Gen fez sinal para o garçom, estava pronta para pedir.

— Já sabe o que pedir? – Dennis sorriu.

— O prato que pedi da última vez, mas fique à vontade pra escolher, senhor cliente! – Gen apoiou os cotovelos na mesa e encarou Dennis sorrindo – Você quer falar da noite passada? – instantaneamente Dennis ficou vermelho.

— Foi uma excelente noite e espero repetir mais vezes… – ele riu e viu Gen ficar vermelha – É muito bom me vingar…

— Bom, de noite, noite eu não garanto nada, porque eu tenho um emprego, mas a gente pode conciliar um horário… – ela riu.

— Já vi que vou beber mais vezes seguidas na semana… – Dennis fechou o cardápio e segurou a mão de Gen por cima da mesa.

— Não sei se sabe, mas o bar tem refrigerante e suco, ah e água!

— Vai cantar quando agora?

— Talvez quarta, mas isso eu ainda estou pensando…

— Como foi que isso aconteceu na sua vida? – Dennis passava o polegar na parte de cima da mão de Gen.

— Bom, eu cheguei aqui, achei o bar, falei com a Lisa no mesmo dia, ela me ofereceu pra ficar na casa dela e me deu um emprego, na sexta-feira daquela semana eu voltei pro bar com uma banda que não cobraria couvert, porque falei pra Lisa voltar com os shows ao vivo, aí arranjei o guitarrista, o baixista, o baterista e como já tinha avisado a Lisa pra soltar nas redes sociais do bar que teria uma banda ao vivo na sexta daquela semana, eu tive que arriscar e cantar, porque nenhum cantor queria trabalhar sem o couvert.

— Você ficou na casa da Lisa sem conhecer ela direito? Foi ela que ofereceu essa loucura? – Dennis olhava para Gen espantado, mas sorria.

— Loucura mesmo, mas eu senti uma coisa muito boa pela Lisa e eu sou muito disso de me dar bem com quem me faz bem, então acho que a Lisa sentiu o mesmo e estamos nessa desde então.

— E você nunca tinha cantado antes?

— Bom, eu cantava só em festa de família que a gente pega o violão e canta uma musiquinha ou outra, mas nunca tinha feito um show, só que eu não podia deixar a Lisa na mão…

— E como foi a recepção do seu primeiro show? – Dennis deu espaço para o garçom deixar os copos de bebida que Gen tinha pedido para os dois.

— Olha, eu não sou cantora, mas sei que qualquer coisa que eu falar vai parecer falsa modéstia, acontece que foi por acaso que eu virei cantora residente do bar, a reação da galera foi como ontem no karaokê, mas eu não estou me gabando, por favor, não pense isso! – Gen gargalhou.

— Bom, você tem uma voz incrível, Gen, acho que isso fica estampado na cara de qualquer um que para pra te ouvir cantar, quando você abriu a boca na quinta-feira e cantou Lucy in the Sky eu fiquei abismado e hipnotizado… – Dennis sorriu – Voltei todos os outros dias pra te ouvir cantar, tenho que admitir, e claro que além de tudo você é ridiculamente bonita, absurdamente espontânea e sei lá, queria te beijar desde quinta… – Dennis riu ficando vermelho – Não que eu entrei no bar, te vi e quis te beijar, só fui saber que queria muito te beijar ontem, mas enfim…

— E que bônus ganhou, né? – Gen brincou para deixar Dennis menos nervoso.

— Um ótimo bônus… – Dennis piscou e sorriu um pouco pervertido – E hoje, o que vai fazer? O bar abre?

— Hoje eu tenho uma reunião com a senhora Lisa, vamos fazer as contas, pedidos, a parte mais chata, o bar abre de terça a domingo e antes que me pergunte, os shows ao vivo geralmente são de quinta à domingo, mas algumas quartas a gente faz também.

— Você é uma ótima publicitária, espero que Lisa te pague uma boa comissão!

— Ela paga!

Antes de ir para o bar depois do almoço e ajudar Lisa com as burocracias e contas, Gen tinha mais um lugar para ir. O ponto de encontro era romântico, mas o encontro não era de fato amoroso. Colônia tinha um ponto turístico que na França foi cancelado há algum tempo: a ponte dos cadeados, ou como era chamado na cidade alemã: Hohenzollern-brücke. Repleto de cadeados de amantes do mundo todo, a ponte era um ponto turístico muito visitado na cidade mais antiga da Alemanha.

Gen esperava de pé na passarela de pedestre e observava todos os cadeados trancados para sempre na esperança de um amor eterno, vários originais, muitos customizados, cadeados de todos os tipos, tamanhos e cores. Gen amava aquelas pequenas coisas que evocavam muitos sentimentos.

— Você deve ser a Gen! – um rapaz chamou a atenção de Gen que olhava para o rio.

— E você deve ser o Hanz! – Gen sorriu e cumprimentou o rapaz com um aperto de mão – Gostei do cabelo! – Gen reparava no cabelo roxo do rapaz, curto e bem punk.

— Minha namorada gosta de me usar de cobaia, mas fazer o quê, eu amo aquela mulher… – ele sorriu e tentou arrumar o cabelo.

— Bom, Hanz, você me disse que já ouviu falar do bar e que já frequentou…

— Eu fui na sua noite de estreia, você arrasou, Gen!

— Obrigada… – Gen ficava tímida – Bom, eu estou tentando trazer cada vez mais bandas pra lá, você me disse que sua banda adoraria fazer o show e eu adoraria escutar! Vi os vídeos de vocês no youtube e, bom, é como falei pra Zoë, se estou aqui é porque você já está dentro, só arrasar agora!

— Sério?! – Hanz falava empolgado, ele era alto e bem branco, o cabelo roxo o deixava mais pálido ainda.

— Sério! Bom, eu te falei também e vou ressaltar, o bar é eclético, e quanto mais músicas interativas você puder trazer, melhor, é maravilhoso quando os clientes levantam e dançam do nada, mas não vou negar que amo um showzinho de rock e punk rock…

— A gente tem uma playlist bem diversificada, posso te mandar por mensagem e você dá uma conferida, o que acha?

— Perfeito! – Gen disse sorrindo e olhou para o celular – Preciso ir agora, mas me manda a lista e eu falo com Lisa de vocês tocarem quarta ou quinta, mas acho melhor quinta, o que acha?

— Qualquer dia está ótimo pra gente!

— Então eu te aviso! Até mais, Hanz! – Gen se despediu e seguiu caminho para o bar, Lisa já devia estar a sua espera.

+++

Além de Lisa, o bar funcionava com mais alguns funcionários, dois na cozinha e mais cinco garçons, sem contar quando Lisa e Gen também ajudavam na recepção e entrega da comida e quando Gen participava dos trabalhos culinários.

— Gen, eu acabei de ver aqui e nunca lucramos tanto! – Lisa dizia vendo Gen entrar no bar e colocar a bolsa em uma mesa.

— O poder de uma música ao vivo, bebê! – Gen se sentou ao lado de Lisa e abriu o notebook que trazia na mão – Bom, vamos às planilhas?

— Eu já verifiquei o que tá faltando e já pedi pros fornecedores trazerem amanhã na hora do almoço, quer acrescentar alguma coisa na lista? – Lisa entregou uma folha com uma lista para Gen.

— Acho que está tudo certo por aqui… – Gen analisava a folha com calma.

— E como foi a noite? – Lisa perguntou segurando o riso.

— Agitada… – Gen corou e riu.

— Imagina minha surpresa ao chegar, subir para meu sono da beleza e ver a porta do seu quarto aberta e várias roupas no chão e um homem na sua cama! – Lisa não segurou a risada mais alta.

— Eu não vou tentar me defender, foi uma ótima noite… – Gen olhava a lista – Pede mais refrigerante, só pra garantir.

— E hoje como foi?

— Fomos almoçar num restaurantezinho um pouco afastado do centro e ele voltou pro trabalho… – Gen pegou a outra parte da lista na segunda folha – Lisa, eu achei outra banda pra tocar aqui, eles têm um estilo meio punk, mas o Hanz, o vocalista, vai me mandar a playlist deles e disse que se eu achasse legal, eles tocariam quinta, o que acha?

— Com couvert? – Lisa perguntou.

— Sim, o que me diz? – Gen sorria.

— Você está fazendo muito pelo bar, eu ainda não sei como te agradecer sem ser parando de fumar… Mas o Dennis fuma também, só queria te falar isso mesmo…

— Eu sei que fuma, descobri esse defeito horrível dele ontem, mas ele não fumou…

— Quem diria que você ia pegar um ator de cinema, né? Já pressinto romance! – Lisa sorriu anotando mais coisas na lista de compras para o bar.

— Nem se atreva, foi uma ficada, se continuar muito que bem, mas sabemos que não vai durar.

— E por que não duraria?

— Porque você sabe que logo mais eu vou embora, Lisa… – Gen sorriu, mas seu sorriso era triste, dava para Lisa perceber.

— Você disse isso no primeiro dia que foi lá pra casa, só ressaltando…

— Disse e não menti.

— Então vai quando? – Lisa sentia seu coração apertar e seus olhos marejarem, mas ela se concentrou na lista de compra para não demonstrar.

— Você sabe que o dia que eu for, você só vai saber porque eu já vou ter ido, eu te falei, Lisa! – Gen segurou o rosto da amiga – Não pensa nisso, e outra, é só um até breve, lembra?

— Você disse que esse foi o lugar que ficou mais tempo, eu só acho que isso é um sinal de que Colônia foi feita pra você… – Lisa enxugou rapidamente as lágrimas que escaparam de seus olhos.

— Ah e com certeza você está certa! – Gen sorriu.

— Bom… – Lisa disse respirando fundo – Eu pensei em te propor uma coisa e tem a ver com show…

— Proponha!

— Uma noite de blues e jazz, o que acha? Tem moral de cantar Aretha e Etta? Fora outras artistas maravilhosas desses estilos? – Lisa se animava aos poucos, não gostava de pensar em Gen indo embora.

— Se eu tenho moral? Nenhuma, mas eu também não tenho vergonha na cara, então vamos nessa! – Lisa se levantou e abraçou Gen com força – Você é meu anjinho, Lisa, eu te amo muito!

— Seu celular está apitando, deve ser o bonito… – Lisa disse vendo o celular da amiga na mesa.

— Deve mesmo… – Gen sorriu e foi buscar o celular.

+++

Era noite de estreia para mais uma banda que Gen achou em Colônia. A semana passou correndo e a organização do novo show ficou por conta de quem propôs o mesmo: Maria Eugênia. A banda era toda da cidade, amigos de faculdade que tinham o mesmo sonho em comum de montar uma banda e ficarem famosos com isso, mas antes da fama, alguns degraus deveriam ser subidos com cautela, iniciar em bares era comum e Gen dava à banda de rock uma oportunidade no bar de Lisa.

As redes sociais já informavam a nova atração e depois de dois dias sem ver Gen sem ser quando ela caminhava perto do set de filmagem, Dennis finalmente teria uma folga nas gravações noturnas para visitar o bunker de madeira e como bônus rever Gen por mais que alguns minutos de quando ela fazia sua corrida matinal.

— Senhor cliente, você chegou bem cedo… – Gen tinha acabado de acender o neon indicativo do bar quando Dennis desceu as escadas.

— Vai trabalhar como hoje? – ele perguntou dando um selinho demorado nela.

— Garçonete! – Gen puxou Dennis de volta para fora do bar – A banda vai passar o som agora, vamos deixar eles ficarem à vontade…

— E assim ficamos também… – Dennis sorria para Gen no muro do bunker.

— Só por um pouco, o trabalho vai ser pesado hoje, mais do que cantar… Lisa está tão animada, eu não quero nunca que o bar pare de ter show ao vivo, só trouxe coisa boa pra Lisa…

— Continua fazendo seu trabalho até morrer e problema resolvido… – Dennis segurava a cintura de Gen e ela passou os braços no pescoço dele.

— Eu sempre vou precisar de uma pausa, por isso as novas bandas!

— Vai ser duro voltar pra capital e não ter um bar tão maravilhoso como esse pra frequentar…

— Sua vida vai ser muito triste depois das gravações… – Gen riu e se permitiu ser beijada por Dennis.

— Deixa eu te perguntar… Depois do seu expediente, quer dormir lá na casa? Eu garanto que tenho um quarto só pra mim… E pode ser só dormir mesmo… – Dennis ficava ruborizado.

— E virar piada dos seus amigos? – Gen riu.

— Bom, aproveitar uma boa companhia era a primeira coisa que pensaria, mas você já quer partir pra esse lado, então tá bom…

— Boa companhia? – ela gargalhou.

— Topa?

— O expediente vai acabar tarde hoje, Dennis, e você trabalha amanhã, então melhor não… – Gen o olhava e mordia o lábio indecisa na decisão que tomava na cabeça – Bom… E se você dormisse na casa da Lisa?

— Os motivos seriam?

— Uma excelente companhia, um excelente café da manhã, quer mais o quê?

— Depois a gente fala sobre essa parte… – Dennis riu e beijou Gen mais uma vez – Topo.

A banda com um estilo diferente, um pouco mais rock, foi um sucesso como Gen previu, os amigos de Hanz se davam muito bem e aquela interação se refletia na maneira como eles cantavam, depois de horas seguidas de show, Hanz fez questão que Gen cantasse uma música com eles, parecia regra das novas bandas, e por mais que Gen falasse que era melhor não, ela acabava cedendo no final e o show ficava mais empolgante.

O último cliente saiu do bar às 3h50, o que foi uma vitória para quem tinha uma rotina cansativa como os funcionários do bar, Lisa parecia cansada naquele dia e Gen mais ainda por não estar acostumada a ficar no salão como garçonete.

— Vocês estão achando que minha casa é o que? – Lisa disse enquanto eles caminhavam juntos para a rua de trás onde Lisa morava.

— Uma hospedaria, foi assim que eu entendi quando me chamou pra ficar aqui… – Gen respondeu rindo.

— A ideia foi da Gen e eu posso pedir um uber ainda… – Dennis disse preocupado.

— Eu não quero som alto, por favor… – Lisa olhou para Dennis – É verdade, Gen, ele fica vermelho com facilidade.

— Eu não tenho culpa se tem alguma coisa no meu corpo que me faz ficar assim a cada brincadeira que vocês fazem! – ele tentava se defender.

— Não prometo nada. – Gen falou e as duas gargalharam no meio da rua.

— Não me acordando de madrugada como vocês fizeram segunda, está ótimo.

— Foi o celular dele, não tenho culpa, eu avisei que você poderia matar ele… – Gen abriu a porta da casa.

— E amanhã ele toca de novo, mas prometo desligar logo… – Dennis disse e entrou na casa.

— Bom, boa noite, juízo, silêncio, paz! – Lisa subiu as escadas.

— Semana que vem vou dar um show temático de novo… – Gen disse encostando as costas na bancada da cozinha e olhando para Dennis.

— Elton?

— Não, vai ser de blues e jazz, ideia da Lisa!

— E você tem moral? – ele ergueu uma sobrancelha provocativa.

— Não, mas eu vou cantar mesmo assim! – Dennis riu.

— Quando? – ele estava próximo a ela.

— Sábado… Vem vamos subir…

+++

As previsões para o fim das gravações em Colônia eram para julho, em poucas semanas toda a equipe se retiraria para a capital em um set pronto e o filme seria finalizado por lá, para não dar mais gastos do que já estava dando. Pensar no fim das gravações naquela cidade fazia Dennis perder algumas noites de sono que não estava com Gen depois da primeira ficada. Estava se envolvendo mais do que o previsto e gostava daquele envolvimento com Maria Eugênia. Por outro lado, quando conversava com Lisa no bar enquanto Gen trabalhava seja de garçonete, cozinheira ou cantando naquela semana, ele percebia que a amiga de Maria Eugênia tinha uma olhar mais triste a cada dia que se passava.

— Você está bem? – Dennis perguntou em um momento que viu Lisa subindo para fumar naquela quarta-feira que precedia o grande show de blues e jazz de Gen.

— Gen tá na cozinha e eu posso escapar pra fumar sem ser julgada… – ela disse pegando o cigarro e oferecendo pra Dennis.

— Acha que ela não vai notar quando chegar perto de nós dois? – ele disse aceitando.

— Vai, mas ela sabe que é difícil pra eu parar, então ela que aceite.

— Mas você não me respondeu, você tá bem?

— Tô, por que acha que não?

— Eu já fui mais fumante do que sou hoje em dia e sei quando o vício se transforma em algo para acalmar alguma ansiedade… – Dennis tragava seu cigarro.

— Sabe quando a gente sente que alguma coisa vai acontecer? É isso que sinto…

— O que você acha que vai acontecer? É ruim?

— A glória de uns é a tristeza de outros…

— Você já disse isso uma vez, tem a ver com a Gen? Ela tá bem? – Dennis se preocupou e suas tragadas no cigarro eram tão ansiosas quanto de Lisa.

— A Gen surgiu na minha vida do nada e é tão bom ter ela aqui, não é? O que você acha da sua relação com ela?

— Bom, a gente não tem se visto com a frequência que eu queria, mas eu gosto de ficar com ela, Gen acima de tudo é uma mulher de outro planeta, divertidíssima…

— Você pensa no dia que você for embora? As gravações acabarem e você voltar pra sua casa…

— Tem três noites que não durmo pensando nisso, tem ajudado a Gen me chamar pra ir pra casa de vocês… – Dennis sorriu tímido e viu Lisa acendendo o segundo cigarro.

— Bom, eu gosto de vocês juntos… – Lisa sorriu – Espero que vocês vão levando e levando, e levando adiante…

— Meio cedo pra pensar nisso, não? – Dennis ainda estava no seu primeiro cigarro.

— Depende do ponto de vista, se você analisar que estão só ficando, sim. Mas se analisar que logo vocês vão embora… Digo, as gravações vão encerrar…

— Obrigado por me fazer pegar mais um cigarro de ansiedade, Lisa… – Dennis acendeu o segundo cigarro – Gen não é muito de fofoca dos famosos, não é?

— Não que eu saiba, ela apareceu em alguma foto com você, né?

— Várias… – Dennis mostrou o celular – Eu acho que ela sabe, porque quando a gente sai pra almoçar é em uns lugares distantes… Acha que isso seria um problema pra ela? Aparecer na mídia comigo?

— Não pra ela, mas acho que ela pensa que seria um problema pra você…

— Lisa, chega, não vou te permitir um terceiro cigarro agora… – Dennis viu a dona do bar pegando mais um cigarro – Que problema seria pra mim?

— Só mais um… – Lisa acendeu o terceiro cigarro – Não sei, Dennis…

— Ei, que foi? – Dennis viu Lisa começar a chorar.

— Meu período, é isso… – ela forçou o sorriso tentou disfarçar.

— Vocês não se atrevam a dirigir a palavra pra mim hoje. – Gen disse saindo do bar com roupa de Chef – Lisa? – Gen viu Lisa chorando.

— Deixa eu voltar pro bar, já deu meu intervalo… E eu vou escovar os dentes, Maria Eugênia, não se preocupe… – ela sorriu pra amiga e desceu as escadas.

— Lisa tava chorando? – Gen perguntou para Dennis.

— Posso dirigir a palavra a você? – ele perguntou sorrindo – Ela disse que estava no período dela…

— Hum… – Gen sabia que Lisa não estava no período menstrual.

— Se eu escovar muito bem os dentes, tomar banho, voltar perfumado, ainda posso dormir com você?

— Perfume não disfarça esse cheiro horrível. – Gen disse olhando para a escada do bar, sabia o que estava fazendo Lisa chorar.

— Você tem toda a razão, acho que hoje a Lisa devia dormir com você, períodos menstruais devem ser muito horríveis… – Dennis sorriu.

— Verdade… – Gen olhou para Dennis – Vou voltar pra cozinha… Sinta-se com um selinho dado.

— Ah, qual é! – Dennis puxou Gen e a beijou contra a vontade dela.

— Nojento! – ela riu – Não encosta em mim, eu estou fazendo comida…

— Eu já vou indo, amanhã gravamos cedo…

— Dorme no banho. – Gen disse caminhando pra longe de Dennis com um sorriso no rosto.

+++

Gen não cantou muito na semana que precedia seu show, Zoë comandava os vocais com a banda de improviso que Gen tinha montado no primeiro show que fez no Holzbunker e que virou uma banda oficial pouco tempo depois. Quando era questionada sobre fazer um show mais longo ela respondia que estava se guardando para o sábado, não deixava de ser verdade.

Era quinta-feira, Dennis tinha dormido na casa de Lisa com Gen mais uma vez depois do expediente do bar e acordou no dia seguinte antes de seu celular despertar, ficou observando Gen dormir tranquila do lado esquerdo da cama, seu braço despido estava descoberto e Dennis o acariciava devagar, gostava de estar com Maria Eugênia, depois da conversa com Lisa ficou pensando em tantas coisas e nenhuma solução aparecia para o ator que se envolvia cada dia mais com a cantora.

— Sem sono? – Gen perguntou se virando na cama pra ficar de frente pra ele.

— De onde você veio? – Dennis perguntou sussurrando.

— De todos os lugares… – ela respondeu com a voz lenta – Brasil… – ela respondeu ainda de olhos fechados.

— O que te fez viajar pra tão longe? – Dennis estava surpreso de saber a origem de Maria Eugênia, ela tinha sido tão misteriosa desde o dia que se conheceram.

— Um avião… – ela riu, mas mantinha os olhos fechados – Um dia eu coloquei na minha cabeça que queria conhecer o máximo de lugares que eu poderia conhecer…

— E aí você veio pra Colônia e conheceu o bunker… – Gen abriu os olhos, por dentro seu coração batia um pouco mais acelerado.

— Aí eu estudei, trabalhei, me formei, continuei trabalhando duro por alguns anos e juntei dinheiro… – ela sorriu – Fechei meus olhos e girei meu globo que era um abajur, coloquei meu dedo nele com um único pensamento na cabeça: vou para o lugar que meu dedo escolher.

— E qual foi? – Dennis voltou a acariciar o braço de Gen.

— Brasil, você acredita? – ela riu – Então resolvi começar pela América do Sul, depois Central e mais uma vez coloquei meu dedo no globo que girava…

— Não foi pra América do Norte?

— Não, vou deixar por último…

— O que o globo te mostrou?

— França… – ela revirou os olhos.

— Você está nisso há quanto tempo? – Dennis fazia cafuné em Gen naquela hora.

— Um ano e meio mais ou menos…

— Colônia não é o último lugar então, né?

— Não, mas foi o lugar que fiquei mais tempo, me apaixonei por essa cidade, por Lisa, pelas pessoas, por toda a experiência… – Gen piscou mais demoradamente.

— Já sabe quando vai embora? – Dennis sentiu uma pontada no peito.

— Já, mas ninguém precisa se preocupar com isso, o dia que eu for, eu terei ido, Colônia me prende mais do que eu poderia imaginar que prenderia… – Dennis sentiu a necessidade de abraçar Gen e foi o que fez.

— Depois da França, pra onde foi? – ele disse soltando Gen que acariciava o rosto dele.

— Suíça, Suécia, Inglaterra, Itália… – Gen riu do olhar espantado de Dennis – Aqui… – ela se virou rapidamente para pegar o celular na cômoda ao lado da cama, colocou em seu instagram e mostrou as fotos de suas viagens para Dennis.

— E pretende continuar essa viagem até quando, já sabe?

— Até eu enjoar, até o dinheiro acabar, o que vier primeiro… – Dennis via as fotos.

— Vou te seguir, me permite?

— Meu perfil é público, senhor cliente, não precisa pedir permissão! – ela riu – Eu já te sigo, só pra você saber…

— Ia morrer sem saber isso, juro… – Dennis pegou seu celular e seguiu Gen na rede social – Se sente preparada pra cantar sábado?

— Não, mas essa é a melhor parte, na hora acaba dando certo! Já te pergunto se quer dormir aqui depois do show…

— Quero, te faço uma massagem, outras coisas… – ele riu, deixou o celular de lado e beijou Gen calma e profundamente.

Parte 4