Eu fazia poesias pra ela, coisas sobre sua beleza, seu sorriso largo e seu riso solto e exagerado que aqueciam meu coração. Ela me retribuía colocando melodias nas poesias, acrescentando, às vezes, alguns versos a mais para transformá-las em música.
A primeira vez que fez aquilo fiquei surpreso. Ela chegou correndo até minha sala, entrou no lugar sem se importar que estava tendo uma aula, foi até uma mesa vazia ao meu lado e se sentou. Dava pra perceber que estava impaciente, sorria animada, quase dava pulinhos na carteira, mas ainda lhe restava um pouco de noção, ela percebeu que quase interrompeu uma aula importante, então só pediu desculpas ao professor e à turma e ficou esperando. Nesses minutos finais de espera ela parou de tentar disfarçar que estava prestando atenção no professor e ficou me encarando. Eu evitava olhar, estava curiosíssimo, mas se olhasse pra ela perderia o resto de atenção que ainda tinha, mas conseguia perceber sua animação, seu sorriso, sua impaciência.
O professor terminou a explicação avisando que na semana seguinte deveríamos entregar o trabalho que já estávamos produzindo, e o pessoal começou a se levantar e sair da sala, então ela ficou agachada ao meu lado, sentada no chão com as pernas cruzadas uma sobre a outra e me olhou de baixo, de onde estava. Seus olhos eram castanhos claros e me hipnotizavam sem que eu hesitasse, seu sorriso continuava largo e eu perguntei o que tinha acontecido pra ela perder sua aula e vir até a minha. Então ela começou a cantar enquanto lia o papel todo marcado pela quantidade de vezes que foi dobrado e desdobrado, papel esse que já tinha pertencido ao meu caderno, mas que eu o arranquei para entregar a ela com uma poesia.
Ela cantava minha poesia e sorria, sentia a melodia em sua cabeça e olhava de relance para mim. Não tirei meu sorriso do rosto nem por um minuto enquanto ela cantava e quando ela terminou eu só consegui dizer: obrigado.
Ela se levantou do chão, ficou de pé, dessa vez me olhando de cima, o sorriso ainda em seu rosto, seus olhos castanhos sorriam junto, ela não disse mais nada, viu minha expressão de pura felicidade e se retirou da sala quase saltitando orgulhosa de si mesma.
No final do dia a encontrei sentada no banco de uma das pracinhas do campus, ela segurava o papel com a minha poesia, mas olhava para todos que caminhavam para todas as direções, quando me aproximei ela sorriu e perguntou se aquilo era uma declaração para ela ou se era um presente sem outros significados.
“O que você acha que é?” perguntei me sentando ao lado dela, sentia meu coração pulando no meu peito, mas não tinha como hesitar perto dela, nem mesmo sabendo que, talvez, poderia não gostar da resposta que ela me daria. Mas ela não disse mais nada, me olhou nos olhos e seu sorriso largo, com os dentes à mostra, se fecharam em um sorriso normal e ela se aproximou mais de mim e me deu um selinho, logo depois uma risadinha sem jeito.
“Me senti especial, queria que se sentisse também, queria que soubesse que tudo isso é recíproco” e eu sabia o que aquele “tudo isso” significava, não contive meu sorriso ainda mais largo.
Ela me inspirava a escrever e eu a inspirava a colocar melodia nas poesias e transformá-las em músicas cantadas pela voz mais doce que já ouvi na vida, ela brincava, ria da piada interna que havia criado para nós dois, dizia que éramos uma nova versão de Bernie e Elton John, mas que dessa vez havia romance, havia amor para além de amigos e foi nessa brincadeira inocente que perguntei a ela porque não investia na carreira.
“Não, isso não…” ela respondia sem jeito, com um sorriso tímido que também me deixava paralisado a observando, mas era um talento que ela não podia guardar para ela, o mundo precisava saber daquilo, precisava escutar sua voz, literalmente.
“O que te impede?” eu perguntava enquanto a olhava de cima, sua cabeça estava apoiada em minhas pernas e eu fazia-lhe um cafuné depois de um dia estressante de aula em que nós dois só queríamos a companhia um do outro, conversar sobre tudo e dar algumas risadas entre beijos e carícias.
“Você está falando sério?” ela perguntou se levantando, ficou sentada de frente pra mim e esboçou um sorriso enquanto esperava minha resposta apreensiva.
“E por qual motivo não falaria?” Seu sorriso se alargou um pouco, o suficiente para que ela ficasse um pouco sem graça, mas sem perder sua espontaneidade. “Você encantaria o mundo com sua voz e beleza se quisesse, e eu estaria lá para te aplaudir de pé…” disse recebendo um selinho em seguida, então ela desfez o sorriso e me olhou séria.
“Isso poderia destruir o que temos…” a olhei confuso, não conseguia entender o que ela dizia, como aquela parceria, aquele amor poderia ser destruído por algo que criamos juntos apenas por criar, apenas porque ela me inspirava e eu a inspirava? Logo seu sorriso voltou um pouco tímido “Posso tentar uns covert no bar, mas preciso de uma banda…” Algo em seus olhos estava inquieto, mas ela quis esconder aquilo, o que funcionou, já que na mesma hora eu abri mais ainda meu sorriso e a puxei para meu colo para um beijo caloroso cheio de alegria por saber que, ao menos, ela iria tentar.
“Você só precisa do seu instrumento, você, o palco e as pessoas para te escutar, não precisa de uma banda…”
Ela encostou sua testa na minha e me olhou bem de perto, sua respiração descompassada como a minha depois do beijo. “Eu, meu violão e minha voz? Parece clichê…” ela riu jogando a cabeça pra trás.
“Eu amo clichês…” disse me perdendo em sua gargalhada.
Sua primeira apresentação não foi um grande marco para sua carreira, mas contou com a presença de amigos que sempre a apoiavam, e eu. O bar estava lotado, mas a maioria só a escutava como um som ambiente, poucos eram os que olhavam para o tablado ao fundo do local para ver uma mulher tímida, com um violão vermelho cheio de adesivos, cantando atrás de um microfone na altura permitida para o som do lugar. Mesmo assim, não quis que ela desanimasse, nem mesmo seus amigos que fizeram, junto comigo, um fuzuê alegre assim que ela encerrou sua apresentação.
“É melhor eu focar na carreira artística que eu já estava focando: as artes plásticas.” Assim que se aproximou de nós, ela falou um pouco ressentida, mas seu sorriso continuava no rosto, por mais desanimado que estivesse.
“Nenhuma banda ou cantor solo começou de um jeito fácil…” a abracei com força, queria que ela soubesse que estaria ao seu lado sempre.
Sua segunda e pequena apresentação foi para um grupo mais organizado, em uma casa de show que a receberia para escutá-la de fato e foi a partir desse dia que sua vida mudou. Bastava que as pessoas a ouvissem e a vissem de verdade para entender que ela era uma estrela, uma luz que emanava energia e que era capaz de nos encantar e envolver de um jeito único. Bastou uma apresentação com todos a olhando fixamente para que mais shows e convites aparecessem.
“A culpa é sua…” ela me dizia dentro do carro toda noite antes de uma apresentação, não possuía um tom raivoso, e, sim, amoroso, um pouco envergonhado, mas feliz.
“Eu vou aceitar essa culpa jogada em mim de muito bom grado!” eu dirigia sorrindo, ela aquecia sua voz e olhava pela janela, podia ver seu peito subindo e descendo numa respiração um pouco acelerada de nervosismo.
“Acha que isso vai durar?” uma vez ela me perguntou séria, já tinha me feito aquela pergunta inúmeras vezes e eu sempre respondia do mesmo jeito “já está durando”, mas daquela vez eu sentia a inquietação em sua voz, a inquietação que estava em seus olhos antes de toda aquela aventura se iniciar, então percebi que ela tinha medo e que o “isso” não era apenas referente à música, à sua carreira em progresso.
“O que te aflige?” perguntei estacionando o carro para olhá-la nos olhos.
“Eu tenho medo de destruir o que temos…”
Era impossível, nossa relação era tão pura, sincera e madura que eu não via como tudo aquilo poderia ir para os ares.
“O que temos é mais forte do que qualquer coisa, não vai ser tão simples assim acabar…” sorri, ela sorriu de volta, mas mantinha a inquietação.
“Não se sente explorado?” Nunca tínhamos entrado naquele assunto.
“Você diz no sentido de eu compor e você cantar?” ela balançou a cabeça concordando “Bernie alguma vez se sentiu explorado?” ela negou com a cabeça e sorriu.
“Nunca quis o holofote?” ela me perguntou e neguei com a cabeça.
“Eu fui feito pra escrever, prefiro ficar nos bastidores te admirando…” e poderia fazer aquilo pelo resto da vida “Era isso que tanto te inquietava, então?” percebi que talvez ela tivesse medo de um conflito de interesses, ela não respondeu, mas seus olhos me confirmavam tudo. “Você é minha estrela, quero que brilhe para o mundo!” ela abriu o sorriso e voltamos para a estrada.
Toda vez que ela fazia um show eu me perdia enquanto ela cantava, ouvia minhas poesias musicadas e sentia orgulho da estrela que tinha em minha vida. Ela tinha nascido para ser grande, para brilhar e quando sabemos dessas certezas o universo abre mais portas e caminhos e foi assim que ela apareceu na televisão pela primeira vez, quase um ano depois de começar aquela “brincadeira” de cantar.
Nos bastidores antes de sua aparição ao vivo ela ficou me abraçando por um tempo que não quis contar. “Acha que isso vai durar?” ela refez a pergunta de sempre, me olhava apreensiva, era nítido que estava nervosa com as proporções que tudo estava tomando, queria que ela sentisse que em mim tinha um porto seguro.
“Já está durando…” respondi beijando o topo de sua testa, mas sua inquietação não passou. Naquela noite ela se revirou na cama sem conseguir dormir e sentou no colchão do quarto do hotel que estávamos. Estava acordado prestando atenção naquela movimentação. “Me diga, o que te aflige?” ela começou a chorar. Era a primeira vez em muito tempo que via lágrimas de angústia caindo de seus olhos, a abracei com força, percebia seus ombros se mexendo enquanto ela dava pequenos soluços.
“Mesmo se isso acabar, você estaria ao meu lado?” ela me perguntou um tempo depois que ficamos em silêncio nos abraçando.
“Estarei ao seu lado mesmo quando não estiver mais tão visível para você…” Disse sabendo o verdadeiro significado daquela frase, daquele outro “isso”.
Ela cresceu, minha estrela foi ficando tão grande quanto um sol e um dia, durante um período em que pude tirar uma folga do trabalho para vê-la cantando ao vivo novamente, ela me abraçou forte e senti que deixou algumas lágrimas caírem.
“Você me disse para correr riscos…” ela disse no camarim, minutos antecediam sua apresentação para algumas milhares de pessoas naquela casa de show. “Estou aqui por você…” ela se separou do abraço e foi até sua penteadeira, trouxe de lá um caderno “O que acha? Arriscado demais?” Ela não dependia mais de mim, ela poderia trilhar seu caminho sozinha e era aquilo que ela queria me dizer quando me mostrou suas próprias composições, dizendo entrelinhas, ocultando os verdadeiros significados que só nós dois entenderíamos.
“Nada é arriscado demais para você…” disse sorrindo, a abracei e ela retribuiu o abraço na mesma intensidade.
“Acho que está mesmo durando…” ela falou sorrindo triste.
“Estarei ao seu lado mesmo quando você não conseguir me ver…” ela precisava escutar aquilo e eu precisava dizer que estava tudo bem.
“Obrigada, por tudo…” ela disse me dando um último selinho antes de sair do camarim e seguir para o palco, e depois daquele show eu a deixei voar com as próprias asas, ela sempre foi capaz de fazer aquilo, mas de alguma maneira se sentia numa gaiola, acolhida, mas sem perceber do que era realmente capaz.
Naquela noite ela cantou sua própria canção apenas com voz e seu violão vermelho, antigo e surrado, mas que servia de amuleto para ela.
“I won’t ask you to stay, to wait, to leave your life and follow me / I can walk alone now, but I Know that alone I never will be / It can take a day, a month or a couple of years / But someday I’ll be back, ‘cause I know you’ll be right here smiling at me / I just wanna let you know I would never want to destroy anything / That’s why it’s for the best that individualy we both follow our own dreams”
Foi com ela cantando que nos unimos e foi com ela cantando que nos despedimos.

Que narrativa perfeita!!! Amei!!!
To bobo com esse final. “Tem pessoas que são passagens, e tem pessoas que são destino”. É isso. Chorei? óbvio.